Gordices de Paris

Quem me conhece sabe o quanto sou gulosa, principalmente em relação a doces, diga-se de passagem. É herança familiar, já que venho de família de doceiras de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio.
Feita a introdução, necessária para vocês entenderem meu comprometimento com o assunto, fiz uma lista das minhas “gordices” favoritas de Paris. Bem, tem que ser de Paris porque não conheço outro lugar do mundo que se compare neste quesito – doçuras deliciosamente sofisticadas.
São muitas viagens a Paris (estou quase chegando a 20) e vários quilinhos ganhos ao retornar pra casa. Que fique registrada minha admiração por todos os profissionais maravilhosos da gastronomia francesa, inclusive os não mencionados aqui. A relação abaixo está longe de ser pretensiosa, ela só reflete minhas experiências.
Respeitando o gosto de muitos pelos pratos salgados, introduzi na minha lista dicas de alguns restaurantes que adoro na Cidade Luz. Vamos lá:
1- Melhor pâtissier (confeiteiro) em geral: Pierre Hermé
Ele é o “cara”. Difícil dizer isso com tantos profissionais maravilhosos em Paris, mas sabe quando a gente fala de alta costura e pensa na Coco Chanel? Pois bem, Pierre Hermé é a Coco Chanel da confeitaria: criativo, sofisticado, genial. Degustar um de seus doces é prazer garantido e inesquecível. Hermé começou trabalhando com o grande mestre Lenôtre aos 14 anos de idade, depois foi para o Fauchon, verdadeiro “templo” de delícias açucaradas, e por último trabalhou muitos anos no Ladurée, outro “templo”, até sair e criar sua própria marca em 1988. Tudo dele é delicioso, mas destaco os “macarons” (que falarei a seguir) e as tortinhas em geral.

Não consegui esperar para tirar a foto. O nome desta torta é Ultime. Sabor e textura sublimes do mestre Pierre Hermé! (Fonte: Mônica Sayão)

As duas melhores lojas são a da rue Bonaparte e a da rue Vaugirard, ambas na margem esquerda de Paris, porque nestas a gente encontra todos os produtos PH, e elas têm o mérito de terem sido as primeiras. Uma nova e grande boutique Pierre Hermé foi inaugurada recentemente na Av. Champs Élysées. Já visitei, mas continuo preferindo as duas primeiras.
2- Melhor macaron: Pierre Hermé e Dalloyau

Macaron do Pierre Hermé: delicioso, e muitas vezes inusitado. (Fonte: Mônica Sayão)

“Macaron” tem como base uma mistura de amêndoas trituradas, clara de ovo e açúcar. Os macarons do Pierre Hermé primam pela textura e também pela originalidade dos sabores. Além dos sabores tradicionais, ele cria macarons com azeite de oliva, fois-gras com chocolate… o céu é o limite.
Pierre Hermé é o criador do icônico doce Ispaham – que junta macaron de rosas, com creme de pétala de rosas com lichias e framboesas frescas. Achou estranho? Prove com o espírito aberto e depois me diga.

Ispahan, doce criado por Pierre Hermé: macarron de rosas com framboesas frescas.
(Fonte: www.pierreherme.com)

Dalloyau, uma das mais tradicionais casas de “gordices”, vamos dizer assim, também faz “macarons” divinos, mas divinos mesmo! A história desta família remonta ao século 17, quando os Dalloyau foram descobertos pelo Rei Luís 14, e conquistaram a Corte de Versailles. Tudo muito chique!
3- Melhor caramel au beurre salé: Henri le Roux e Joel Robuchon (em seu Atelier J. Robuchon)
“Caramel au beurre salé” nada mais é do que caramelo com manteiga salgada, certo? Mais ou menos. Você acrescente nozes, amêndoas e avelãs trituradas na massa, e aí está: deliciosa, super macia e puxa-puxa ao mesmo tempo.
Quem criou esta delícia foi Henri le Roux, francês da Bretanha, que patenteou sua invenção há 40 anos. São chamados de C.B.S. e na sua loja de Saint Germain a gente encontra o sabor original e outros tantos. Correndo por fora, indico o “caramel au beurre salé” do Atelier Joel Robuchon. Os caramelos são oferecidos com o café, ao final da refeição. São escandalosamente bons. Só que não se pode comprá-los, só indo ao restaurante…
4- Melhor marron glacé: Henri le Roux e Dalloyau

A loja do Henri Le Roux no bairro de St. Germain de Prés: marron glacé e
caramelos com manteiga salgada maravilhosos!
(Fonte: www.tripadvisor.com.br)

“Marron glacé” é a castanha glaçada e é super tradicional na França. Elas são vendidas individualmente ou em caixas, sempre embaladas uma a uma. No Henri le Roux ainda há outra categoria de preparo da castanha: é o “marron confit”. É uma fase anterior ao ponto do glaçado, e assim a castanha fica menos doce e mais úmida. Tentação…
5- Melhor “citron tarte”: Arnaud Lahrer

A torta de limão do Arnaud Lahrer é divina! (Fonte:www.arnaudlahrer.com)

Tortas de limão estão presentes em quase todas as pâtisseries da França. Há variações, mas todas são muito boas. A do Arnaud Lahrer merece atenção especial: ele já ganhou prêmio de melhor “citron tarte” da cidade. Provei e realmente é daquelas que quando você termina, fica com a sensação de querer mais. A base crocante e o creme de limão perfeito fazem combinação imbatível.
6- Melhor mil folhas: Pierre Hermé e Jean Paul Hévin

Duas mil folhas de avelã do Pierre Hermé me fazem perder o juízo!
(Fonte: Mônica Sayão)

Neste quesito, as “deux mille feuilles” (duas mil folhas) do Pierre Hermé são imbatíveis, de comer rezando. Se você gosta de creme de avelãs, com avelãs caramelizadas em pedaços, intercalas por finíssimas folhas de massa crocantes, corra atrás e você não se arrependerá. Para as mil folhas tradicionais, minha sugestão são as do Paul Hévin. Compre sem pestanejar.
7- Melhor chocolatier: Pierre Marcolini e Edwart Chocolatier
Há maravilhosos “chocolatiers” em Paris, mas destaco Pierre Marcolini, considerado o melhor “chocolatier” da Bélgica e consagrado também na França. É tudo tão maravilhoso que é difícil tarefa destacar um produto. Correndo por fora, sugiro visita ao Edwart em sua loja do Marais. Aliás, hoje há outras duas lojas em Paris. Se você der sorte como eu de ser atendida pelo próprio, fará uma imersão no mundo do chocolate. Parecia que estava degustando um vinho precioso, tamanha a atenção com as variadas origens, sabores e características. Tal esmero tem que produzir um produto soberbo, e assim é que considero os chocolates do Edwart.

Edwart é uma figura muita simpática e me deu uma aula sobre chocolates: foi meu dia de sorte! (Fonte: Mônica Sayão)

8- Melhor chocolate quente: Angelina e Pierre Marcolini
O chocolate quente do Angelina é uma unanimidade. É bem espesso e com pouco açúcar. Se você tomá-lo na casa de chá Angelina da rue de Rivoli, aí a tarde se torna perfeita: um lindo lugar com um chocolate quente divino. Outra opção é o chocolate quente do Pierre Marcolini. Tem que ser para viagem já que as lojas Marcolini ainda não dispõem de mesas para se sentar. Vale qualquer desconforto: é menos espesso que o da Angelina, mas tão bom quanto.
9- Melhor croissant: Pierre Hermé e Gerard Mulot
Aqui está o PH novamente. Os croissants franceses são excelentes, mas depois de muito degustar (é, croissant deve ser degustado) a gente começa a identificar os melhores. Nesta categoria estão os do Gerard Mulot, em sua simpática loja de Saint Germain, e ele mais uma vez – Pierre Hermé – em especial o croissant Ispaham, com a extravagante combinação de rosas, lichias e amêndoas. Você os encontra nas lojas da rue Bonaparte e rue de Varenne, mas corra, porque eles acabam rapidinho de tão deliciosos que são!
10- Melhor padaria: Le Grenier à Pain

Le Grenier à Pain de Montmartre. (Fonte:www.legrenierapain.com)

Há várias lojas Le Grenier à Pain por Paris, mas a da rue des Abesses, em Montmartre, é minha favorita. Esta rua é repleta de restaurantes e lojas de comidinhas diversas. Assim, invento um bom pretexto para ir até lá. Em 2014, Le Grenier recebeu o prêmio de melhor baguete de Paris, prêmio este que concede a honra ao estabelecimento de ser o fornecedor dos pães do Palácio des Champs Elysées, sede do governo francês, até a eleição da melhor baguete do ano seguinte. Tudo é maravilhoso, principalmente os pães e os bolos caseiros.
11- Melhor éclair: L´Eclair du Génie

L’Éclair de Génie, uma perdição!!! (Fonte: Mônica Sayão)

Éclair é a nossa “bomba”, uma massa comprida recheada geralmente de baunilha, chocolate ou café. Pâtisserie também comum na França, de uns anos para cá ela ganhou nova roupagem. São muitos sabores de recheio, e outros tantos de cobertura. Lindo e divino, é o que posso dizer. A L´Eclair du Génie é minha favorita. Os sabores de creme de maracujá com framboesas frescas na cobertura e o de limão siciliano são meus grandes favoritos, mas todos são deliciosos.
Agora vamos a algumas dicas no setor salgado, como prometido!
12- Melhor confit de canard: Au Général la Fayatte

Bistrô Au Général La Fayette: atmosfera informal e aberto até tarde!
(Fonte: Mônica Sayão)

Adoro “confit de canard”, um dos mais tradicionais pratos da culinária francesa. Trata-se da coxa do pato cozida lentamente em sua própria gordura. À procura de um restaurante que estivesse aberto tarde da noite, acabei esbarrando, por sorte minha, no bistrô Au Général La Fayette. É um lugar bem francês, com piso de pastilhas antigas e inspiração art-nouveau. Típico restaurante de bairro, sem grandes pretensões, mas com um divino “confit de canard”, acompanhado de batatas memoráveis! Estava tão bom, que retornei dias depois para um repeteco…
13- Melhor bistrô: La Régalade
Um bom restaurante não se mede somente pela gastronomia. É um conjunto de fatores que fazem a gente gostar mais ou menos de um deles. O atendimento pode não ser necessariamente amistoso, mas deve ser eficiente e cortês. A decoração deve ser de bom gosto e fazer você se sentir bem. E os preços devem ser honestos, pelo menos para mim! Já fui a alguns restaurantes caríssimos, confesso que a maioria maravilhosos, mas provavelmente, não retornarei. Por isso tudo elegi o La Régalade como meu favorito em Paris.
Há dois La Régalade: o St. Honoré, na rua do mesmo nome, e o Conservatoire, que se localiza dentro do Hotel de Nell, com entrada independente pela rua Conservatoire. O último é meu predileto.
Há um esquema muito interessante nos dois restaurantes: uma fórmula de três pratos, entrada + prato principal + sobremesa, por um valor fixo de 39 euros, o que é uma quase pechincha, pela qualidade e por ser Paris.

La Régalade Conservatoire: ambiente super simpático. (Fonte: Mônica Sayão)
Espaço amplo e claro, decoração bacana sem ser pretensiosa.
(Fonte: Mônica Sayão)
Minha entrada favorita no La Régalade: risoto de tinta de lula e camarões, com finas lascas de alho e presunto tostados, sobre emulsão leitosa. De comer rezando…
(Fonte: Mônica Sayão)
E para não fugir à regra, vou pular o prato principal para ir até a sobremesa: arroz doce, ele mesmo,
nosso arroz doce de antigamente, com calda de caramelo salgado. E a quantidade mostrada nesta foto é só para uma pessoa! Delícia deliciosa… (Fonte: Mônica Sayão)

14- Melhor mercado: La Grand Épicerie de Paris

O templo da gastronomia em Paris. (Fonte: www.lagrandeepicerie.com)

Para terminar esta coluna, vou dar a dica de um único lugar onde você possa encontrar muito do que descrevi aqui, ou similares, e também maravilhosos queijos, azeites, presuntos, vinhos, geleias, chás e tudo o mais que conseguir imaginar. Chama-se “La Grande Épicerie de Paris”, que pertence ao “Bon Marché”, uma das mais antigas e elegantes lojas de departamento da cidade. É um deleite para os amantes da gastronomia, um lugar imperdível a ser visitado, pelo menos uma vez na vida. Impossível deixar o mercado de mãos vazias, impossível mesmo!
E agora, o leitor vai me dar licença porque tenho que voltar à realidade e preparar minha refeição diária: salada e carne magra. E de sobremesa, frutas.
Pois é…

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