Dresden – A pérola do Rio Elba (parte I)

Ela é mais conhecida como a “Florença do rio Elba”, mas eu prefiro chamá-la de a “Pérola do rio Elba” – não importa, Dresden é absolutamente maravilhosa. Florença não me parece um nome muito apropriado se você pensar que a cidade italiana foi o celeiro da cultura e arte renascentista nos séculos 14 e 15.
Dresden é renascentista, mas definitivamente muito barroca, e sua história de glória e pompa foi interrompida por devastador bombardeio das forças aliadas no final da Segunda Guerra Mundial. Mas isto vai ser assunto para mais adiante.

Vista do centro histórico, com a Ópera ao fundo à direita.
(Fonte: Mônica Sayão)

Dresden é a capital e segunda maior cidade do estado alemão da Saxônia, só superada por Leipzig. Sua população hoje está em torno de 550 mil habitantes. Sua história como cidade remonta ao início do século 13, quando foi fundada.

Saxônia no mapa atual daAlemanha, onde Dresden é a capital
(Fonte: sylvia-lenz.blogspot.com)

1 – Augusto II, o Forte:
Vocês sabem que a história de povos antigos é sempre um pouco ou bastante complicada. O importante é saber sobre os Wettin: membros desta dinastia se tornaram príncipes-eleitores e reis que governaram a Saxônia, Saxônia Anhalt, Turingia (e Polônia eventualmente) por séculos.
O grande nome da dinastia Wettin foi Augusto II, o Forte. Sua ambição e amor pelas artes fizeram com que transformasse Dresden, nos séculos 17 e 18, numa belíssima e rica cidade, repleta de construções barrocas espetaculares, sendo chamado de o “Rei-Sol” da Alemanha – alusão ao rei francês Luís XIV.

Augusto II, o Forte
Foto: Monica Sayão
Condessa de Cosel, sua amante influente
(Fonte: pt.wikipedia.org)

Augusto II, o Forte, nasceu em Dresden em 1670 e morreu em Varsóvia em 1733. Além do interesse pelos seus feitos como governante, há duas peculiaridades sobre sua vida particular: teve somente um filho legítimo, Augusto III, e pelo menos 350 filhos bastardos confirmados. É o que conta a lenda… E tinha uma amante oficial, Anna de Cosel, que logo foi transformada na condessa de Cosel, ganhando os benefícios de um membro da família real e o castelo de Pillnitz, nos arredores de Dresden.
Na cidade, ela morava ao lado do Palácio Real, e havia, inclusive, uma passagem coberta entre as duas residências. A condessa era muito inteligente e logo se envolveu na política, tornando-se uma figura influente. Com o passar dos anos, Augusto acabou se interessando por outra mulher com menos ambições intelectuais e políticas. Cosel caiu em desgraça e passou 49 anos encarcerada no castelo de Stolpen, onde morreu em 1765. Oh vida…
2 – Principais atrações do centro histórico:

Mapa de Dresden (Fonte: Lonely Planet)

Antes das atrações, preciso falar sobre a destruição de Dresden na Segunda Guerra. Tudo o que vocês virem nas fotos do centro histórico foi bombardeado naquele fatídico fevereiro de 1945 pelas forças americanas e inglesas. Os aliados lançaram sobre a capital barroca da Alemanha um ataque tão brutal, que o resultado foi uma área destruída de 39 quilômetros quadrados no centro da cidade, principalmente na parte histórica. Isto é MUITA coisa!

Outra maneira de entender, é dizer que 75% do centro de Dresden foi bombardeado. Berlim, capital alemã, teve aproximadamente 30% de destruição. A guerra já estava ganha, e os eventuais alvos, que seriam pontes e um parque industrial mais afastado, não foram atingidos. A única motivação dos aliados seria atingir o país no lugar que era o centro cultural e artístico do país, na Florença do rio Elba… Uma vingança, parece mais provável. Mas guerra é guerra, e a razão escapa à nossa compreensão.

Dresden após o bombardeio de 1945.
(Fonte: YouTube)

Quando a Alemanha foi divida em 4 áreas distintas para serem controladas pelos aliados, no pós-guerra, a Saxônia fazia parte da área dos russos.
Em Dresden, o novo governo comunista renovou o que achou necessário na cidade. Muito continuou destruído.
A Frauenkirche, a mais importante construção protestante da cidade, desabou completamente naquele bombardeio de 1945. Assim foi deixada, por décadas, as pedras se amontoando pelo chão, sem nem mesmo serem retiradas.
Um alemão local de 40 anos me disse que, assim como outras crianças, adorava brincar nas ruínas da igreja, sobre os montes de pedras pelo chão.
Somente após a reunificação das duas Alemanhas em 1990, é que enormes investimentos foram feitos para resgatar à cidade a grandeza de antigamente. E justiça seja feita, os alemães foram e continuam sendo fantásticos neste processo de restauração de Dresden e de todo o país unificado.
Talvez agora Dresden devesse ser chamada de “A Fênix do rio Elba”…
2.1- Palácio Real (Rezidenzschloss):

Final da tarde em frente ao Palácio Real.
(Fonte: Mônica Sayão)
Contam as más línguas que por esta passagem Augusto II ia se encontrar com a Condessa de Cosel… Detesto fofoca!
(Fonte: Mônica Sayão)

O que mais impressiona no Palácio Real são os objetos de arte colecionadas ao longo do tempo pelos Wettin, principalmente por Augusto II e seu filho Augusto III.
Duas das coleções em especial precisam ser visitadas. A Neues Grünes Gewölbe (Nova Áboboda Verde) e o Historisches Grünes Gewölbe (Histórica Abóboda Verde) são duas coleções espetaculares do tesouro de reis e príncipes da Saxônia (preciso explicar que pode soar estranho “Abóboda Verde”, mas é referente a um salão verde com teto abobadado, onde parte do tesouro fica exposto).
Joias e todo tipo de objetos estão dispostos aos nossos olhos, muitas vezes incrédulos. É uma pena que as fotos não sejam permitidas. Além da beleza, através das peças a gente passa a ter uma ideia mais clara da riqueza e poder desta dinastia.
2.2 – Palácio Zwinger:
O Zwinger foi construído por Augusto II como um espaço para festas e eventos diversos da corte. A construção se desenvolveu em torno de um enorme pátio central gramado e com fontes, e sua arquitetura barroca suntuosa logo o fez famoso pela Europa.
Hoje abriga uma importante coleção de pinturas reunidas na Gemäldegalerie Alte Meister (Galeria de Arte dos Grandes Mestres Antigos).
Os grandes pintores renascentistas e barrocos italianos assim como os mestres holandeses do século 17 estão expostos lá. Imperdível.
Há também uma outra galeria dentro do Zwinger, que é só de porcelana. Maravilhosa.
O Zwinger também foi destruído durante a Segunda Guerra e reconstruído com os mínimos detalhes barrocos em 1964. Impressionante!

Zwinger: enorme estrutura para eventos.
(Fonte: Mônica Sayão)
Zwinger: fachada externa posterior.
(Fonte: Mônica Sayão)
Zwinger: construções belíssimas
(Fonte: Mônica Sayão)
Zwinger: amo estes detalhes…
(Fonte: Mônica Sayão)

2.3 – Ópera Semper (Semperoper):

Originalmente construída em 1834, com projeto de Gottfried Semper, a Ópera Semper foi destruída 2 vezes ao longo dos anos: por fogo devastador e, décadas depois, por bombas em 1945.

Foi reconstruída em 1985 e hoje é uma das mais respeitadas casas de ópera, música clássica e balé da Europa.

É possível conhecê-la através de visita guiada, que fiz e foi ótima, e/ou assistindo a algum espetáculo, que também fiz, e foi emocionante.

O lugar é lindo e a atmosfera durante uma apresentação é algo de especial: o povo alemão sabe muito sobre música clássica e é comum ver espectadores com partitura nas mãos para acompanhar a performance dos artistas.

Ópera Semper: uma das mais famosas da Europa.
(Fonte: Mônica Sayão)
Ópera Semper: corredores luxuosos!
(Fonte: Mônica Sayão)

2.4 – Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora):
Talvez o maior símbolo da cidade de Dresden, a Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora), como nós vemos hoje, foi inaugurada e consagrada em 1734.
Já contei aqui que ela foi totalmente destruída no final da guerra e reconstruída após a reunificação da Alemanha, exatamente como era em 1734.
Antes, porém, nesse mesmo lugar havia uma igreja do século 11, com fins missionários, com o propósito de converter ao Cristianismo tribos vizinhas.
Ao longo dos séculos, houve várias modificações no prédio, talvez a mais importante de cunho religioso, porque após a reforma de Martim Lutero, no século 16, a Frauenkirche se transformou em uma igreja protestante, o que é até hoje. Sua reconstrução foi terminada em 2005.
Assisti a um concerto lá no período da Páscoa que foi espetacular. Fica aqui a dica.

Frauenkirche: o símbolo da reconstrução de Dresden após a queda do muro de Berlim.
(Fonte: Mônica Sayão)
Frauenkirche: as pedras escuras da fachada são as originais de antes do bombardeio de 1945.
Estátua de Martim Lutero na frente da igreja mostra que ela se tornou protestante.
(Fonte: Mônica Sayão)

2.5 – Katholische Hofkirche (Igreja Católica):

Desde 1980 designada como a catedral de Dresden, é uma igreja católica em uma cidade protestante. Foi construída por Augusto III, no século 18, para uso da família real, que era católica. Seu pai, Augusto II, está enterrado lá.

Catedral católica ao lado do Palácio Real: originalmente para uso da família real.
(Fonte: Mônica Sayão)

2.6 – Fürstenzug (Procissão dos Príncipes):

Uma das atrações mais lindas de Dresden é a Fürstenzug, que é um painel de mais de 100 metros de comprimento que reveste a parede externa do Stallhof (Pátio dos Estábulos Reais), ao lado do Palácio Real. O painel mostra a linhagem da família real da Saxônia. Lá estão retratados todos os governantes da Saxônia do século 12 ao século 20. São 25 mil peças de porcelana pintadas à mão uma a uma, com grande riqueza de detalhes. É claro que Augusto II está retratado lá, com vocês podem ver em detalhe abaixo. Imperdível! A propósito, o último rei da Saxônia abdicou em 1918.

O monumental painel de 25 mil peças de porcelana pintadas à mão.
(Fonte: Mônica Sayão)
A Procissão dos Príncipes, de outro ângulo.
(Fonte: Mônica Sayão)
Detalhe das figuras de Augusto II e de seu filho Augusto III.
(Fonte: Mônica Sayão)

2.7 – Simplesmente flanar pelas ruas do centro histórico:

Parece óbvio, mas no caso de Dresden é especialmente importante.

Estive na cidade quatro vezes, e acho que nunca será suficiente. Da última vez foi em dezembro de 2017. Já estava diferente de quando fui em maio de 2016.

O processo de reconstrução continua em andamento, como a do bairro judeu. Sempre há uma grande placa na frente do canteiro de obras mostrando como a área ficará depois de pronta. Há muitas lojas interessantes, como a que vende a porcelana de Meissen, mundialmente famosa.

Imaginem quem quis que a Saxônia produzisse a melhor porcelana do mundo, de alta qualidade? Claro, Augusto II…

Há bons restaurantes e hotéis para todos os gostos e bolsos. Há lojas de chocolates deliciosos! Há rua de comércio tradicional que começa no centro histórico e termina na estação de trem.

Tudo pode ser feito a pé se você estiver hospedado no centro antigo. Passear e apreciar a vista do rio Elba é fundamental e isto pode ser feito no Terraço de Brühl – um longo terraço elevado ao longo do rio, com bancos para a gente deixar o tempo passar.

Há turistas, mas não tantos, o que torna a vida mais fácil… Como se eu basicamente não fosse uma!

Pelas ruas do centro histórico.
(Fonte: Mônica Sayão)

2.8 – Atravessar o rio Elba:

Do outro lado do rio Elba, em frente ao centro histórico, encontra-se o bairro de Innere Neuestadt, que também foi afetado pelo bombardeio de 1945. Mas foi restaurado e é muito simpático.

Rua principal (só de pedestres) de comércio na Neuestadt.
(Fonte: Mônica Sayão)
Sempre há muitas galerias internas e boas surpresas.
(Fonte: Mônica Sayão)

Se você tiver tempo, sugiro também que faça o tour de ônibus turístico, que dura pouco mais de uma hora, e visita justamente o que está fora do centro histórico. É uma agradável surpresa. Bairros residenciais lindos não afetados pela guerra valem ser vistos.

Durante passeio de ônibus turístico: bairros que não poderia conhecer de outra forma.
(Fonte: Mônica Sayão)

Agora, como última dica do dia, gostaria de mostrar uma igreja que nunca aparece nos guias de turismo. Nem o ônibus turístico passa por ela porque é mais afastada do centro de Dresden. Mas para quem estiver de carro, como eu estava, vale a pena parar pelo menos para uma ótima foto. É a Igreja de São Martinho (Sankt Martin Kirche). Foi construída no século 19, o que significa que é muito jovem para os padrões europeus, mas sua arquitetura neo-românica é muito linda. E tem uma particularidade: a igreja é tanto católica como protestante. Há missas e cultos em horários diversos e sempre especificados na entrada.

Igreja de São Martinho: surpreendente!
(Fonte: Mônica Sayão)

O próximo post será sobre as maravilhosas feiras de Natal de Dresden. Pois é, acreditem, merecem um post só para elas. São as mais antigas da Alemanha e mais diferenciadas, de uma magia e riqueza de detalhes… totalmente apaixonantes!
Até breve!

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