Berlim – Parte II: Arquitetura da reunificação

Nenhuma outra cidade da Alemanha passou por uma transformação tão grande depois da reunificação do país quanto Berlim. Há exemplos importantes como Dresden, muito destruída no final da Segunda Guerra, que teve seu centro histórico reconstruído de maneira impressionante nessas últimas décadas. Mas foi um processo de restabelecer a arquitetura antiga atingida, sem tirar os méritos de tal empreendimento.

Com Berlim foi diferente porque após ter sido dividida durante 28 anos por um muro, capitalismo versus comunismo, havia uma tarefa muito mais abrangente: a de reerguer a parte oriental de maneira que tivesse unidade com a parte ocidental/capitalista.

Ao tornar-se novamente a capital do país em outubro de 1990, havia uma necessidade ainda maior que o resultado fosse espetacular, como uma “fênix que renasce das cinzas”. Para isso arquitetos de várias nacionalidades apresentaram seus projetos, que foram submetidos à análise para aprovação e escolha. Os melhores do mundo se fizeram presente: quem não queria fazer parte dessa grande empreitada e ver seus trabalhos reconhecidos?

É claro que Berlim oriental existia como cidade, mas o que lá foi destruído foi reconstruído pelo governo da RDA da maneira que se chama “arquitetura do pós-guerra”: prédios cinzas, muitos pré-fabricados, sem nenhum adorno, pobres de estilo e de acabamento. Não havia dinheiro e a filosofia do partido priorizava o coletivo.

Como arquiteta vou falar sobre os projetos que mais me impressionaram pela criatividade, ousadia e contemporaneidade. É minha opinião pessoal, claro.

O Reichstag (Parlamento Alemão): sobreviveu aos bombardeios mas não sua cúpula. Nova cúpula foi projetada por Norman Foster. Linda!
(Fonte: Mônica Sayão)

Tenho que começar pelo Reichstag (Parlamento), símbolo maior da unificação da Alemanha. Construído em estilo neoclássico em 1894, foi o lugar de reunião dos parlamentares alemães até 1933. Possuía uma cúpula de vidro com uma coroa imperial no topo, e que foi muito danificada durante os bombardeios na guerra. A partir de 1990 quando a capital do país voltou a ser Berlim, e após muito debate, foi resolvido que uma nova cúpula de vidro precisava ser construída.

Coube a Sir Norman Foster, renomado arquiteto inglês, a tarefa e o resultado é maravilhoso.

Não me canso de visitar o Reichstag e subir pela passarela que dá acesso ao topo da cúpula. As fotos dirão mais do que poderia descrever.

Estrutura maravilhosa, com coluna central toda facetada e revestida de espelhos. Passarelas junto ao vidro dão acesso ao topo.
(Fonte: Mônica Sayão)
Há duas passarelas distintas: uma para subir e outra para descer.
Elas não se comunicam. (Fonte: Mônica Sayão)
A gente não sabe se olha para dentro ou para fora!
(Fonte: Mônica Sayão)
Vista de parte do Tiergarten, o grande parque do centro de Berlim. O gramado é o mesmo da primeira foto, em frente ao Reichstag.
Ao fundo à direita está a Chancelaria, onde Angela Merkel trabalha.
(Fonte: Mônica Sayão)
Na escadaria do Reichstag meu grupo de viagens, que acompanho há muitos anos. Antes só era a guia delas, agora somos todas muito amigas.

Próximo ao Reischtag encontra-se a Pariser Platz (Praça dos Franceses), que todos conhecem por ser a praça retangular junto ao Portão de Brandenburgo. Como a foto antiga abaixo mostra, lá está o Portão visto de lado, com o muro na sua frente, e com um grande espaço vazio atrás. Ali era a Pariser Platz antes da guerra e que também ficou muito destruída. O que sobrou, com o tempo, os alemães orientais decidiram demolir de vez, inclusive a parte do icônico Hotel Adlon que havia sobrevivido às bombas.

Região do Portão de Brandenburgo no tempo do muro. À direita está o Tiergarten,
grande área verde da cidade. No entorno do monumento, a devastação causada pela guerra.
Detalhe: o Portão de Brandenburgo pertencia à Berlim Oriental.
Foto tirada a partir do Reichstag. (Fonte: wikipedia.com)

Hoje tudo foi reconstruído e não há mais terrenos baldios.

A Pariser Platz é cercada por prédios, todos da mesma altura e que não podem ser mais altos que o Portão.

Entre essas construções, sem chamar a atenção, está o DZBank, banco alemão. Por fora é bacana, mas nada especial. Mas esse projeto é do genial canadense Frank Gehry, que vive surpreendendo o mundo com seu trabalho. Vide o Museu Gugenheim de Bilbao, de sua autoria, entre outras obras espetaculares.

Quando a gente entre No DZBank leva um choque. Pelo menos eu levei! Foram três anos de construção até ser inaugurado em 2000.

Consegui na época fazer uma visita ao banco, que é composto só de escritórios e não é aberto ao público. Coisas de ter amigos berlinenses queridos! Foi um privilégio! Vejam as fotos abaixo.

Não é motivo para um choque com visão tão inusitada? É uma forma orgânica no meio da rigidez da estrutura de madeira.
A cobertura de vidro inferior é o teto de um grande salão com mesas e cadeiras.
Acima do elemento de metal ao fundo, no final da cobertura superior, foi o lugar de onde tirei a próxima foto, só para o leitor entender.
(Fonte: Mônica Sayão)
Aqui está a visão oposta à entrada no prédio. Os pingos de água no vidro são porque estavam limpando toda a estrutura. Já vou mostrar mais.
(Fonte: Mônica Sayão)
Aqui está um homem à direita limpando o vidro. No reflexo vê-se outro homem em um guindaste limpando a parte de cima da cobertura. Fiquei impressionada!
(Fonte: Mônica Sayão)
Aqui temos três homens amarrados às cordas, fazendo a limpeza da parte metálica. E eu precisando de uma simples faxineira… (Fonte: Mônica Sayão)

Outra arquitetura que me impressiona é a do Sony Center, conjunto que foi inaugurado em 2000, ano que visitei Berlim pela primeira vez. Nessa época o entorno do Sony Center ainda era um gigantesco canteiro de obras mas o Sony Center estava lá, absoluto, surpreendendo a todos. Uma estrutura circular de aço e vidro que se apoia no topo de prédios próximos e que com isso permite uma área em comum coberta? É isso mesmo. Na área em comum há vários restaurantes, cafés e um cinema. Os prédios são de escritórios e o lugar é sempre bastante concorrido e alegre.

Essa foto dá uma boa noção de como é o Sony Center. Ao fundo o Tiergarten, no coração de Berlim.
A construção amarela à esquerda é a da Filarmônica de Berlim, inaugurada em 1964. Mas isso é assunto para um próximo post.
(Fonte: madisonint.com)

Conhecido pelos berlinenses como “chapéu chinês” é uma ideia incrível, de enorme impacto visual. Foi projetado por Helmut Jahn, arquiteto alemão-americano de grande prestígio internacional. O Sony Center é, na minha opinião, a construção que melhor representa a reunificação de Berlim.

Lembram que disse na semana passada que a cidade tem muitos símbolos?

Uma cobertura que se apoia em prédios diferentes, alguns com alturas também diversas, que está criando um espaço em comum para ser usufruído por todos, é visto por muitos locais como um símbolo.

Uma das entradas do Sony Center. A visão da cobertura já causa um “uau” nesse ponto.
(Fonte: Mônica Sayão)
Tão singela, parece estar flutuando no ar. Mas dá para imaginar a complexidade desse projeto.
(Fonte: Mônica Sayão)
Num dia de sol, o “uau” é completo!
(Fonte: Mônica Sayão)
À noite a cobertura sempre está iluminada. (Fonte: Mônica Sayão)

A Hauptbahnhof (estação central de trens) é outro projeto muito interessante. Foi inaugurada em 2006 e tem a característica principal de ser toda de vidro, inclusive as coberturas das plataformas dos trens. E essas coberturas são curvas!

A estação central de trens (Hauptbahnhof) fica nas margens do rio Spree. Estou na margem oposta esperando entrar no barco para passeio.
Interior da estação de trens: tudo e de vidro!
(Fonte: archiv.berliner-verkehr.de)

Adoro arquitetura “abusada” eu diria assim. O exemplo abaixo é um queridinho meu. Uma ideia simples no conceito, mas que provoca o olhar. Como ficar indiferente ao bloco prateado em balanço, apoiado na ponta do bloco escuro? É o Hotel Nhow Berlim.

Gosto muito desse projeto: simples e ainda assim instigante.
(Fonte: Mônica Sayão)
Detalhe do bloco em balanço. (Fonte: Mônica Sayão)

O assunto “arquitetura em Berlim” me fascina. Poderia ainda enumerar muitos outros exemplos mas o leitor já deve estar cansado. De qualquer forma quero deixar registrado outros grandes nomes da arquitetura mundial que projetaram edifícios fantásticos em Berlim, como o polonês/americano Daniel Libeskind, o italiano Renzo Piano, e o americano de origem chinesa Ming Pei, só para citar alguns.

E para finalizar gostaria de mostrar construções na ex-Berlim ocidental, que também se modernizou com os novos ventos soprados da parte oriental.

Hotel Ameron Villa Abion em primeiro plano e Ministério do Interior ao fundo: também localizados na margem do rio Spree,
são dois exemplos de arquitetura do pós reunificação. Ficam no bairro Moabit.
(Fonte: Mônica Sayão)
Arquitetura que aproveita a parte antiga original e dá interessante composição
estética ao conjunto. (Fonte: Mônica Sayão)

Na próxima semana teremos mais um tema sobre Berlim. Até lá!

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