O novo é pra lá de velho

A man takes a selfie as supporters of Brazil’s new President Jair Bolsonaro gather outside the Planalto Palace ahead of Bolsonaro’s swear-in ceremony, in Brasilia, Brazil, January 1, 2019. REUTERS/Sergio Moraes

Temos um presidente mais apegado à ideologia do que o petismo que os eleitores derrotaram.
Nós, os virtuosos, contra eles, a incorporação de todos os males. O mantra do bolsonarismo nada mais é do que a reedição com sinal trocado do antagonismo alimentado por mais de uma década pelo PT. Uma estratégia-escorpião, exitosa por algum tempo, mas que pode acabar, como a história recente mostrou, por envenenar seus praticantes.
No planeta habitado pelo presidente Jair Bolsonaro e os seus, isso se traduz no embate infantil entre a nova e a velha política, como se o diabo habitasse em tudo que já existia e a força divina tivesse ungido o presidente para promover a redenção.
Não há nada de novo na nova política. O termo, base do discurso da candidata à Presidência Marina Silva, foi sequestrado pelo fãs de Bolsonaro e pelo próprio, que, propositalmente, fazem questão de confundir nova política com política nenhuma.
Preferem também não conferir definições à nova política, algo que a candidata da Rede cuidou de fazer na campanha em que ela e qualquer tipo de conteúdo construtivo foram fragorosamente derrotados. Como o bolsonarismo é encantado pela destruição do que aí está – intuito verbalizado pelo presidente -, e por generalidades, a tal da nova política veio a calhar.
Dia sim, outro também – agora amenizado com hasteamento de bandeira branca que sabe-se lá quanto tempo vai durar -, o governo lança suspeições sobre o Parlamento. E, todo-poderoso, pretende-se imaculado, acusando, como se criminosos fossem, todos aqueles que reivindicam articulação política mínima e alguma interlocução.
Bolsonaro bravateou que não se renderá à velha política. Algo salutar se limitado à negação do toma lá, dá cá e de negociações espúrias, usuais entre seus antecessores. O problema é que ele não cumpre o dever de casa.
É curioso observar as características ímpares da nova política que o presidente passou a pregar.
Ela engloba a manutenção de ministros investigados, um deles confesso por prática de caixa dois, e outro enrolado com o uso de laranjas para financiamento de campanha. Comporta em seus princípios a demissão de um fiscal do Ibama só porque este teve o desplante de aplicar uma multa depois de flagrar o presidente pescando em local proibido.
Despreza as investigações envolvendo um de seus rebentos com milícias do Rio de Janeiro e considera normal que seu filho mais novo use dependências exclusivas de treinamento de policiais federais para praticar tiro. Uma mistura de estações entre público e privado tão deplorável quanto a estrela de flores vermelhas que Dona Marisa plantou nos jardins do Alvorada.
Ainda mais bizarro é assistir à dinâmica dos bolsonaro-fundamentalistas contra a velha política. Utilizam com maestria a avançada tecnologia de multiplicação de mensagens nas redes sociais, com perfis robóticos, duvidosos ou falsos, para difundir o que há de mais dinossáurico.
Combatem a ameaça comunista com o vigor dos tempos da guerra fria, cujo auge se deu em meados do século passado. Louvam o golpe de 1964, que neste domingo completa 55 anos; querem mais escolas militares e a reintrodução das aulas Moral e Cívica, aquelas que, nos anos 1970, 11 entre 10 alunos zoavam ou matavam. Todo um conteúdo, diga-se, pra lá de inovador.
De preferência, o novinovo pressupõe meninas de vermelho e meninos de azul e a inclusão de revisões no currículo de História, informando aos estudantes que o nazismo é coisa da esquerda, como preconizou o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. E, talvez, que a Terra é plana, se o guru Olavo Carvalho disser que assim deve ser.
Ironias à parte, o que se vê é um país atônito diante de um presidente mais apegado às questões ideológicas do que o petismo que os eleitores derrotaram. Que dá mais importância a temas periféricos – lombadas nas estradas, o italiano Cesare Battisti ou sua viagem a Israel – do que ao desemprego crescente, a insolvência dos estados e as necessárias reformas para destravar a economia.
Que se esconde na nova política para despistar a incompetência, essa nossa velha conhecida.
Fonte: Blog do Noblat – Veja Abril

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