Porque Agosto é uma promessa de Primavera

Foto: Dotz Soh

Ela olhou o calendário e sorriu: 1 de agosto. Tinha cismas com pessoas, cores, nomes, signos, bichos. Meses. Amava agosto. Não é que as sakuras só florescem em agosto?!, pensou. Gente, ninguém vê que o azul fica mais… mais… sei lá, céu?! Que as luas de agosto são mais plenas? Que até o ar meio que resplandece? Que Cat Stevens soa melhor no mês oito? “Quando os Beatles cruzaram a Abbey Road”, lembrou, começando imediatamente a cantarolar a melodia de “Something”.

Em agosto as rosas cintilam de tão rosas.

Ela enfiou os dedos dos pés na areia e viu a água encher as pegadas. Pequenas criaturas de água doce nadavam onde seus pés estiveram. A água parecia tão pura como há um milhão de anos. A magia de agosto. Clichê, guria. Mas é.

Lembrou do mar próximo e da sensação de sempre ver movimento nas ondas. O mar a chamava, o mar-mãe, primal. Até o oceano parecia mais escuro e cheio de promessas em agosto! Fazia frio agora, mas até para ela, que amava o frio, havia diferença. “O frio era mais doce em agosto”, pensou, vendo sua pele crispar-se em centenas de pequenos arrepios em forma de estrelas.

Para ela, agosto sempre fora a época de dormir sob a lua em seu quarto, de acordar pulando da cama ao sentir o cheiro do café que sua mãe fazia, café com bolo de milho, de sair para a escola ainda mastigando bolo e beijando o pai com a boca de farelo, que ele fingia não gostar, o cheiro da barba do velho com a loção antiga e amada,

“Bença mãe!, bença pai!”,

Agosto de saudade, agosto de fim de férias, ela de calças jeans e havaianas brancas, agosto de beijos roubados atrás do Instituto de Educação, de brigadeiros e algodão-doce, de deitar na grama e ouvir Lô Borges.

– você tá ficando velha, guria!

Riu, apressou o passo, o sol na cabeça, como na canção antiga, a praça das cerejeiras estava logo ali, em frente, e ela chegou e se viu menina outra vez, quando a mãe a levava para correr atrás dos quero-queros, o chão um tapete cor de rosa, como os tapetes de sal de Corpus Christi na Matriz, a mãe rindo da pequena de rabo de cavalo, a cena gravada na mente das duas para todo o sempre.

Saudade a gosto.

“Porque agosto é uma promessa de Primavera”, ela disse, baixinho, para si mesma.

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