O resgate do Citroën XM, das areias e do tempo

Esse aí na foto, ao lado de um reluzente (e estranhamente todo aberto) Citroën XM Exclusive V6 é este que aqui tecla. A foto faz parte do conjunto que achei durante esse já longo distanciamento social, se sair de casa, arrumando gavetas, armários e HDs. Como já contei em posts anteriores e que também mostram modelos hoje já antigos, as fotos são todas do comecinho dos 1990s, feitas durante alguns dos meus primeiros test-drives, para a antiga revista Ele Ela.

O Brasil acabara de reabrir as importações de automóveis e recebi a missão de criar uma seção fixa sobre carros para a publicação, onde trabalhava como redator. Uma demanda do departamento comercial, de olho nas várias concessionárias de importados que começavam a pipocar por aqui e que poderiam, quem sabe, render anúncios. Trabalho divertido e que, no caso desse carro aí, especificamente, rendeu uma verdadeira aventura, que por pouco não tem um final trágico.

Da loja para a praia

Naqueles dias, como a importação era recente, nem sempre havia veículos da frota das montadoras destinados aos test-drives. No caso desse Citroën, ele era um dos poucos trazidos diretamente da França para as lojas e ficava exposto em uma delas, na Barra da Tijuca, onde fui buscá-lo para umas voltinhas e fotos, com placas provisórias verdes. Junto comigo e com o fotógrafo, embarcou no XM um solícito funcionário da revendedora, especialista em marketing e vendas e recém chegado de São Paulo, que foi me apresentando o carro.

Luxuoso, cheio de acessórios e recursos que naqueles tempos eram novidade – como freios a disco nas quatro rodas com ABS, piloto automático, ar-condicionado com comando digital e coisas do gênero – ele ainda contava com aquela maravilhosa suspensão hidropneumática ativa, chamada Hidractive, da marca francesa, que fazia com que literalmente flutuasse pelo asfalto. Com um sistema eletrônico, a as rodas dianteiras “liam” o piso e passavam as informações a um processador, que em milionésimos de segundo, preparavam as rodas traseiras para buracos, calombos ou o que fosse o que pudesse fazer o carro balançar e incomodar seus ocupantes. E a coisa funcionava como mágica. Em vez do tradicional “tun-dum” ao passar com o carro sobre um desses defeitos do caminho, mal se ouvia – e sentia – o primeiro “tun”.

Seguimos maravilhados com aquela joia francesa até a praia de Grumari, que naqueles tempos não tinha urbanização praticamente nenhuma – apenas uma pista estreita, com um asfalto quase todo destruído, que margeava diretamente as areias. Minha ideia era estacionar o carro na própria pista, pois simplesmente não havia tráfego, e meu colega faria belas fotos com o mar ao fundo.

Grumari não é Santos

Foi aí que o nosso acompanhante sugeriu que levássemos o carro, pela areia, até mais perto do mar. Expliquei para ele que as areias ali eram fofas, e que entrar com o XM não seria uma boa ideia. Ele me respondeu dizendo que com a suspensão em seu ponto mais alto, aquele carro tinha a capacidade de andar em terrenos com aquele com facilidade, e que já havia feito uma demonstração disso para jornalistas – em Santos.

De nada adiantou eu tentar demovê-lo da ideia. Teimoso, quando disse a ele que aquela praia não era igual às de Santos – com suas areias mais duras, ele simplesmente me ignorou, entrou no carro, ligou e acelerou em direção ao mar.

Do primeiro trecho, onde havia uma vegetação rasteira e uma suave descida, ele até passou. Mas bastou chegar à parte plana da areia para, hum, naufragar. Nervoso, nosso amigo ainda tentou acelerar o carro, cavando ainda mais fundo o atoleiro seco. Ainda tentamos cavar sob as rodas, para ver se ele conseguia guiar de volta, mas foi inútil.

Desesperado, ele saiu do carro quase chorando. Não havia celulares para pedir ajuda, a praia era deserta e, para complicar, notamos que a maré estava subindo e que era bem provável que, em mais algumas horas, aquele ponto das areias fosse atingido pelas ondas.

Magaiver Koifman

Tentando esfriar a cabeça, concluí que a única maneira de tirar o XM dali seria construir uma trilha mais firme para que ele pudesse rodar sobre as areias. Caminhei na direção da pista e comecei a procurar os ingredientes para a empreitada. Por sorte, algum tempo antes haviam demolido alguns quiosques na beira da pista e havia muitas folhas secas e restos de esteira jogados por ali. Chamei os outros dois e, aos poucos, carregamos esse material para perto do carro e pavimentamos a nossa rua na areia, começando junto às rodas da frente do Citroenzão. Depois disso, entrei no carro e, lentamente, com a porta aberta para poder manter as rodas sobre o “tapete”, consegui subir de ré até a pista, salvando o carro e o emprego do nosso acompanhante.

Ainda tivemos tempo de limpar a areia das rodas para fazer mais algumas fotos e a matéria saiu no mês seguinte, acho, na revista.

Hoje, Citroëns daquele tipo, com suspensão hidropneumática, são muito raros no Brasil. Além do XM, que tinha uma lindíssima versão Break (perua, na foto), vieram naquela primeira safra os BX, mais baratos, e, mais tarde, chegaria seu sucessor, o Xantia. Sua manutenção era cara e poucos mecânicos se dispunham a enfrentar aquele sistema tão diferente, mas que funcionava espetacularmente bem. Tanto que chegou a equipar alguns modelos da Rolls-Royce, por proporcionar um conforto sem igual.

Ficha técnica do Citroën XM (fonte: Wikipedia):

Capacidade: 5 lugares (incluindo motorista);

Comprimento: Aprox. 4,7 metros;

Largura: Aprox. 1,8 metro;

Altura: Aprox. 1,4 metro;

Peso: Aprox. 1.300 kg (Sensation 2.0);

Peso: Aprox. 1.550 kg (Exclusive 3.0);

Entre-eixos (espaço interno): Aprox. 2,85 metros;

Carroceria: Hatch 5 portas (estúdio Bertone);

Transmissão: Manual 5 marchas, Automática 4 marchas ZF 4HP18 (Exclusive 3.0 até 1997) ou 4HP20 (de 1998 a 2000);

Aceleração 0 a 100 km / h (Sensation 2.0 Turbo manual): Aprox. 8,2 segundos;

Aceleração 0 a 100 km / h (Exclusive V6 3.0 automático): Aprox. 9,3 segundos;

Suspensão: Hidropneumática;

Freios: Disco / ABS nas quatro rodas;

Motorização Exclusive (potência / torque): 3.0 V6 12V (174 cv / )(até 1997); 3.0 V6 24 valv. (194 cv / 27 kgfm)(1998 em diante);

Motorização Sensation (potência / torque): 2.0 turbo (150 cv / 23,9 kgfm);

Alimentação: Injeção Eletrônica

Fonte: Blog Rebimboca

Notícias Relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *