A vida não pode ser medida em polegadas

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Foram trinta dias sem acesso ao celular, tablet ou computador e, como mágica, recuperei minha filha de um isolamento nocivo que a tecnologia tem causado em milhões de lares em todo o mundo. Desligar os aparelhos não foi uma decisão dela, obviamente. Foi a maneira que encontrei de lhe dar um castigo que efetivamente causasse algum efeito positivo. E o resultado foi assustador.
Sem ter o que fazer, ela passou a ficar mais tempo comigo conversando, assistindo seriados juntas, passeando e até cozinhando. Ela passou a me ajudar nas tarefas da casa com mais prazer, já que não estava distraída ou contando os minutos para voltar a enfiar o nariz no celular, e também voltou a ler (hábito que ela sempre teve mais que havia deixado de lado há alguns meses).
A dependência dos jovens à tecnologia é notória, mas quando se vê o efeito dentro da própria casa, é outra coisa; o que me levou a pensar na minha própria parcela de culpa. Não nego que, muitas vezes, eu mesma me vejo mergulhada no meu próprio mundo e, naquele momento, o que eu menos quero é que me interrompam, principalmente para fazer atividades que não estou a fim.
Escrever, ler, ver meus filmes ou bater papo no WhatsApp com meus amigos e família são minhas distrações quando não estou trabalhando, cozinhando ou fazendo as inúmeras tarefas da casa. E, nestes momentos de puro deleite, se minha filha estivesse no canto dela absorta no próprio WhatsApp, Skype ou YouTube, eu não me importaria. Afinal, tudo o que eu queria era silêncio. A conveniência daqueles momentos não me fazia questionar o quanto estávamos realmente distantes. Até que um dia ela mereceu um castigo.
Lembro-me de quando eu era criança e meus pais me puniam, proibindo-me de ir à casa das minhas amigas, me mandavam ficar no quarto por horas ou no máximo ficar sem TV. Hoje, a tecnologia nos deu o poder de realmente fazer a diferença.
Porque, convenhamos, ficar sem ir na casa dos amigos ou nos trancar no quarto não causava um efeito muito positivo, mas quando você tira o acesso à tecnologia, as chances de os momentos em família aumentarem são grandes e, com isso, as oportunidade de se reconectar.
Há uma semana, devolvi os eletrônicos à minha filha e os péssimos hábitos retornaram à casa. As conversas sobre o dia na escola, os amigos e até os momentos juntas na cozinha se reduziram ao mínimo necessário. Se eu não tivesse vivido os últimos trinta dias como foram, talvez não tivesse notado a diferença, mas agora que tenho ciência não posso negar que o óbvio nem sempre nos incomoda. Saber que a vida em família está se transformando em pequenos núcleos individuais e não fazer nada é uma conivência da qual não quero mais fazer parte.
Hoje, conversamos novamente e estipulamos limite para o uso dos eletrônicos em casa. E isso vale para todos na casa. O mundo dentro das polegadas luminosas dos celulares, tablets e computador pode ser tentador, mas a interação familiar é melhor. Com um pouco de esforço, podemos criar espaço para ambos.

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