O caminho de volta para casa

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O termômetro na parede do escritório mostra -2 graus. São quatro e meia da tarde. Desligo o computador, tranco a minha gaveta e visto meu casaco. Olho pela janela do segundo andar e vejo as luzes amareladas dos postes e seus halos refletidos na neblina e fecho o casaco com pressa. Havia esquecido em casa os acessórios que me aqueceriam outras partes do corpo. Chegaria em casa com as mãos e as orelhas congeladas e minha filha ficaria furiosa comigo quando a tocasse, de propósito, só para vê-la dar aquele riso histérico misturado com alegria e apreensão. Meus lábios se esticam em um sorriso que aquece a minha alma de mãe.
Vou passando pelas mesas e me despedindo dos colegas lhes desejando um Feliz Ano Novo. Pessoas com quem convivo tempo o suficiente para lhes querem bem. São pessoas boas, ao menos comigo. Não tenho do que me queixar. Despeço-me do porteiro que me dá um olhar distraído e retribui o gesto. Seus olhos estavam vidrados na televisão do saguão. Não presto atenção no que ele assiste.
Estou com os pés quase do lado de fora e meus pensamentos já começam a se debater entre os problemas do trabalho e as tarefas doméstica. Será que tenho os ingredientes para fazer um frango ensopado? Hmmm… talvez uma sopa caísse bem neste frio… Será que respondi àquele email do gerente de contas? Franzo a testa. Se não respondi, vão ter que esperar até terça-feira por causa do recesso de fim de ano.
Atravesso a rua encolhida de frio. O vento congela a ponta do meu nariz. Faço uma manobra com a bolsa e enfio as mãos nos bolsos do casaco. Apresso os passos. Não vejo a hora de me aquecer de novo. Felizmente, a estação fica a poucos metros do trabalho e, quando percebo, já estou na plataforma esperando o trem para Dorridge. Estou dois minutos atrasada, mas o trem também está. Minhas mãos estão quentes dentro do bolso, mas minhas orelhas, bochecha e nariz devem estar avermelhados. Fico contente por minha filha estar de férias e não ter precisado sair do aconchego morno de casa.
O meu assento preferido está livre. Vou apressada e me acomodo. Não que eu teria dificuldades em encontrar um lugar vazio hoje. Véspera de Ano Novo, o movimento na estação é seguramente a metade dos dias normais. Quem pôde, tirou férias nesta época do ano. Quem não pôde, bem… aproveita a viagem de trem para ler um livro. No meu caso, A Coisa, de Stephen King. Assisti ao filme três vezes, mas nunca tinha lido o livro. Ainda não dá para saber se é bom, mas sendo do King, duvido que não o seja. Embora, confesso, já abandonei um livro dele antes: LOVE: A História de Lisey. Cheguei à metade e desisti. Nem me lembro da história direito. Acho que era sobre um escritor que tinha morrido e, alguns anos depois, a viúva passa a conhece-lo melhor através de seus objetos pessoais e anotações guardados no sótão… eu acho. Como eu disse, não me lembro direito. Talvez devesse tentar novamente. Simplesmente amo o modo como ele escreve e o que esconde por trás do terror de suas histórias. Lembro-me da entrevista com ele que assisti há poucas semanas em que ele dizia que ser apenas um cara normal que, diferente do que pensam, não tivera nenhum trauma na infância que o tivesse transformado nesse cara tão “ferrado”. Na verdade, ele usou um termo mais pesado, como é esperado do Mr. King.
No meio do parágrafo, uma mensagem da minha filha salta na tela do celular cobrindo parte do trecho do livro. Sim, leio os livros na pequena tela do telefone e dá muito certo. Na mensagem, ela me pergunta se vou demorar. Às vezes acho que ela copia e cola a mensagem do dia anterior. Todos os dias, no mesmo horário, ela me faz a mesma pergunta. E eu mando a mesma resposta. “Estou no trem. Chego em vinte minutos. Tá tudo bem?” e, a partir daí, abandono o livro. Trocamos várias mensagens e, quando o tempo está decente, ela vem me encontrar no meio do caminho da estação para casa, mas não hoje. Olho para fora e só vejo a escuridão embora ainda não sejam nem cinco da tarde. Vez ou outra, algumas luzes ao longe nos bairros afastados passam rapidamente pela janela.
Descanso a cabeça no vidro e fico olhando o meu caminho de volta pensando no ano que está quase acabando. Mudei de cidade, tive duas promoções no trabalho, meu marido sofreu um acidente de moto, meu filho se casou, minha filha se separou e eu me reuni com minha família no Brasil por três semanas. Não consigo sentir nada além de plenitude. Tudo o que foi ruim poderia ter sido pior e do que foi bom, não posso me reclamar!
O trem para na minha estação e me levanto rapidamente. Fecho os botões do casaco até o pescoço e ajeito os cabelos para fora da gola. Enfio o celular no bolso e lá mesmo deixo a minha mão. A porta se abre e o frio é cortante. Percebo as três pessoas do meu lado se encolhendo como eu.
No meu caminho para casa, O pavimento estava coberto de folhas úmidas. Elas, antes alaranjadas, haviam se tornado um marrom escuro, pisoteadas por todo o tipo de gente. Sempre me sinto melancólica quando vejo o manto de folhas esmagado no chão, mas nunca entendi o porquê. Talvez porque, meses antes, elas estavam lindas, jovens e vivas nos galhos acima; depois, tornaram-se amarelas e caíram colorindo o chão com seus tons de outono para agora, com a chegada do inverno, se transformar em tapetes podres e escorregadios. Uma vida tão breve e tão nobre para ser concluída daquela maneira. Mas não somos todos assim? Não terminamos nós, humanos, a vários palmos abaixo da terra sendo comidos por vermes, ou até mesmo viramos pó!?
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Inicio o meu trecho favorito do meu caminho para casa onde os galhos das árvores que ladeiam a estrada se prolongam e se curvam formando imensos arcos verdes A temperatura neste trecho é ainda mais baixa, mas o cenário é tão lindo que paro e tiro uma foto. Não consigo o efeito desejado. Guardo o celular novamente no bolso e sinto o calor da lã derreter a sensação gélida que os poucos minutos segurando o celular causaram em meus dedos. Encolho os ombros e sigo o meu caminho. Só mais 700 metros e estarei em casa.
Sinto falta do aconchego da minha sala de estar com o teclado eletrônico novo da minha filha montado bem no meio do caminho. Ela ainda não o levou para o andar de cima como eu pedi, e eu não me importo. Sinto falta do pelo macio do meu gato nas minhas pernas enquanto me sento no sofá para escrever.
Só mais alguns metros e já quase sinto o aroma do café que vou fazer quando chegar em casa. Aí me lembro de uma coisa. Ainda dá tempo, penso comigo mesma.
Tiro as mãos do bolso. Ainda faltam trezentos metros. O frio começa a penetrar na pele e me arrepia o braço. Encolho-me toda, sorrindo. Pego a última estradinha e já vejo a minha cabeça à frente. A luz da sala está acesa e pela semitransparência da cortina posso ver que a televisão está ligada. Ela assiste a um episódio da nossa série favorita. Acelero os passos sentindo o nariz e os olhos úmidos da cerração.
A porta não está trancada e quando a abro, uma massa de ar quente me atinge e me puxa para dentro em um abraço acolhedor. Largo a bolsa na mesinha da entrada e, mesmo antes de tirar os sapatos e o casaco, vou para cima dela no sofá com as mãos estendidas em direção ao seu rosto. Ela protesta, se esquiva, se afunda toda no sofá rindo descontroladamente até que consigo tocar a sua bochecha e um pedaço da nuca entre os seus cabelos compridos e macios. Ela grita e esperneia. E eu dou risada. O meu caminho para casa sempre me leva ao melhor lugar do mundo.
Querido leitor, que a sua trajetória em 2017 seja repleta de pequenos momentos, detalhes que fazem a vida valer a pena!

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