Muito prazer, meu nome é Bambu


Não sei se é pela diferença cultural (o bom brasileiro é raça guerreira, ninguém pode discordar) ou porque o ser humano simplesmente enfraqueceu, mas descobri que sou “resiliente”. E, quer saber? Sou mesmo. Só não tinha me dado conta ainda.
Recentemente, eu estava em uma reunião informal no trabalho e começamos a falar sobre os altos e baixos da vida. As rasteiras que levamos e outras que damos a nós mesmos (sei que isso é fisicamente impossível, mas você entende o que quero dizer: autossabotagem, péssimas decisões, e coisas do gênero). Comecei a falar sobre as inúmeras vezes em que tive que recomeçar – na Itália e também aqui na Inglaterra – e quando me dei conta, estava tudo silencioso ao meu redor. Nem zum-zum-zum ou barulho ambiente. Os olhos estavam grudados em mim.
“Ei, não é nada demais” disse eu, genuinamente. “Sou apenas como tantos imigrantes que têm que recomeçar várias e várias vezes até encontrar um caminho. E se este caminho não existir, a gente cava um com as próprias mãos”, falei rindo. Foi quando percebi que ninguém naquela sala compartilhava do mesmo entusiasmo que eu. Achei que estavam me julgando irresponsável ou estúpida, mas não. O que para mim é um comportamento óbvio, inevitável e absurdamente lógico diante de situações difíceis, para eles era sinônimo de resiliência (termo muito batido no mundo dos negócios).
Fiquei pensando no porquê de eles acharem que a minha trajetória poderia ser “inspiradora”. Existem milhões de pessoas no mundo passando por situações semelhantes e outros milhões muito pior, infelizmente. E só consegui pensar em uma coisa. O ser humano está fragilizado.
Ao mesmo tempo em que a expectativa de vida aumentou em cinco anos desde o início do terceiro milênio, estamos menos saudáveis. A qualidade do alimento que consumimos é indiscutivelmente pior do que cem anos atrás. Sem contar na qualidade do ar e no índice de sedentarismo. O ser humano está ficando mole (física e emocionalmente).
No passado, homens mantinham a saúde física diariamente em trabalhos braçais. Hoje, grande parte da população se enfia em academias para trabalhar músculos que ficam praticamente esquecidos no dia a dia em um escritório. No passado, não havia disque-pizza nem fast food. E o resultado são os 30% de pessoas obesas no mundo. No passado, os problemas eram tão dolorosamente reais que não havia tempo para sessões com psicanalistas. Hoje, a expressão em inglês “there is a pill for every ill” diz tudo (existe um remédio para cada doença).
O ser humano está se tornando um aleijado emocional. Uma busca rápida na internet revelou 29 nomes de remédios diferentes para a depressão. Um em cada vinte habitantes do planeta sofre da doença, embora estudos recentes também dizem que o diagnóstico e a prescrição precoce de antidepressivos é preocupante. Em 2015, foram vendidas 55 milhões de caixas deste medicamento, diz o IMS Health do Brasil. Depressão é uma doença séria e perigosa por isso procuro tomar a minha pílula especial todos os dias: o otimismo.
O meu modus operandi inclui pensamento positivo, o acreditar que nenhum problema é eterno e que coisas ruins acontecem (com todos) e que diante delas temos duas opções: fazer nada ou fazer alguma coisa. Quando a decisão for de tomar uma atitude (porque às vezes o melhor a fazer é não fazer nada), esta também tem que ser positiva. Negativismo só ajuda a nos puxar ainda mais para baixo.
O drama não cabe na minha dieta. Choro sim, fico triste sim, mas não por muito tempo. Não fico parada enquanto os preciosos e irrecuperáveis dias da minha vida vão passando. Tenho trabalho a fazer, família para cuidar e um monte de sonhos para conquistar. Os desafios vêm e vão e cabe a mim aceitá-los e usá-los para exercitar a minha “resiliência” assim como fazemos com os bíceps e glúteos nos aparelhos de ginástica.
Estudos científicos mostram que o pensamento positivo reprograma o cérebro. Ao pensar positivamente no dia a dia, o cérebro é treinado a reagir positivamente diante de qualquer situação. Portanto, quando surgir um verdadeiro drama na sua vida, a Pollyana em você vai se revelar naturalmente.
Sei que pareço aquelas tagarelas inconvenientes que acabaram de ler um livro de autoajuda e acham que pode salvar o mundo, mas não é isso. Li apenas um artigo que só reforça o que venho fazendo a vida toda. Não tenho medo de cair e não importa quantas vezes eu caia, vou sempre me levantar. E isso não pode ser inspirador ou revelador. Deveria ser senso comum!
Existem momentos felizes e momentos infelizes e devemos passar por eles com o devido respeito.
Quando algo maravilhoso acontece na minha vida, eu o saboreio, agradeço com todos os meus sentidos! Abraço o momento como uma criança recém-nascida. Aprecio o cheiro, as curvas das orelhinhas, os dedos pequenos e macios, a textura suave da pele e me deixo ser inundada por aquele sentimento de amor. Tudo isso porque eu sei que ao virar a esquina, posso cair e quebrar as pernas, ser atropelada por um carro ou simplesmente enfiar o pé em uma poça d’água, não importa a dimensão, sei que algo pode acontecer e quando acontecer, vou lidar com o que quer que seja porque ainda não concluí o meu caminho.
Assim como o bambu, posso me curvar, mas não quebro; me moldo mas não mudo a minha essência; aceito as dificuldades com respeito; sou versátil e ao mesmo tempo firme e não importam os obstáculos, eles nunca serão maiores do que a minha vontade de vencer.

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