Beastie Boys it's in the house, what we're gonna do?


Pode até parecer que foi ontem para quem como eu prefere não se lembrar de que já ultrapassou o ‘cabo da boa esperança’ (leia-se, o quadragésimo aniversário) há tempos, mas o fato é que já lá se vão 30 anos desde o lançamento deste verdadeiro marco da música pop chamado Paul’s Boutique. E muito embora o hip hop tenha surgido como um multitentacular veículo de expressão para os sentimentos, necessidades e demandas da América negra, o gênero também se caracteriza por sua capacidade ímpar de assimilação étnica e cultural.
Dessa maneira, a despeito de certa desconfiança inicial, rappers brancos começaram também a marcar presença no hip hop já na década de 80; dentre esses, os Beastie Boys estão em inequívoco plano de destaque, ombreando com os mais importantes artistas negros do gênero.
Egressos do Brooklyn, tradicional reduto judeu de NY, e com um background eminentemente punk, ninguém jamais poderia cogitar que aqueles três garotos irrequietos e debochados lançariam o álbum de maior sucesso comercial em toda a história do rap: produzido pelo mitológico Rick Rubin, Licensed to Ill (1986) foi não apenas um estrondoso fenômeno de vendas, mas também lançou as bases do crossover entre hip hop, heavy metal e hard rock, inspirando um sem-número de epígonos ao longo dos anos seguintes.
Pejado de faixas a um só tempo pesadas e dançantes, e ainda de letras vitriolicamente escrachadas, é um disco sobremaneira divertido e contagiante; carece, contudo, de maior elaboração musical, e seu novelty value decerto se esgota após algumas audições, o que levou muita gente boa a considerar que a banda seria tão somente uma one hit wonder… não obstante, os caras novamente deixariam o mundo boquiaberto com o lançamento de seu segundo disco, o magnífico Paul’s Boutique (1989).
Gravado durante o ‘exílio’ temporário da banda em Los Angeles, e após toda uma série de turnês tumultuadas, bem como de tormentosas polêmicas em função da misoginia presente nas letras do álbum de estreia, Paul’s Boutique é um dos discos mais arrojados e vanguardistas de todos os tempos, portentoso testemunho da incrível fluência dos BB’s como rappers, bem como da genialidade delirante de sua dupla de produtores, os Dust Brothers (E.Z. Mike e ‘King’ Gizmo); assim sendo, trata-se de uma OBRA-PRIMA de produção, engenharia de som e poética rap.
Fruto de um contexto privilegiado que nunca mais se repetiria no futuro, isto é, de uma época onde a legislação em termos de ‘sampleagem’ ainda não estava plenamente estabelecida, nunca antes ou depois se viu uma tão rica, labiríntica e complexa tapeçaria de samples, de tal modo entremeados uns aos outros em camadas multiformes e interligadas, que temos não uma simples colagem de citações justapostas, mas sim um verdadeiro exercício de reprocessamento antropofágico da tradição na gestação do novo.
Ademais, Paul’s Boutique, malgrado alicerçado nos marcos estéticos do hip hop, expande-se generosamente, mais do que qualquer outro disco do gênero, para outras paragens musicais, dialogando incessantemente com elementos de funk, soul, jazz, reggae, hard rock, etc; finalmente, em termos líricos, a dinâmica multitudinária e ecumênica do disco reafirma-se numa assombrosa cornucópia de alusões, referências e trocadilhos sobre NY e a cultura pop de forma geral, tornando-se fascinante o exercício de decodificação temática e semiótica do abrangente universo conceitual urdido pelo trio de rappers.
Assim como em relação It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back (Public Enemy), é sumamente difícil nomear os highlights da obra magna dos Beastie Boys, pois o álbum é tão orgânico e coerente que funciona muito mais como um monolítico continuum de sons e idéias em permanente manar do que como mera reunião de faixas; todavia, a meu juízo as seguintes faixas são dignas de menção especial: Johnny Ryal, irresistível fusão rap’n’soul; Egg Man, rap em compasso de filme de suspense; High Plains Drifter, hipnótico ensaio de hip hop em mutação genética dub; Hey Ladies, funkaço digno de um Parliament das melhores safras; Looking Down the Barrel of a Gun, talvez a melhor fusão de rap / metal criada pela banda; e por fim, o caleidoscópio sônico par excellence de B-Boy Bouillabaisse.
Resumo da ópera: um DISCAÇO.

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