A incrível, fascinante y trágica trajetória d'um conservador britânico brasileiro

Gostaria de compartilhar convosco hoje um texto que escrevi em parceria com um fraterno amigo, e que a meu ver diz muito sobre certo tipo de figura infelizmente recorrente no cenário ideológico do Brasil contemporâneo.
Alfredo RR de Sousa y Gabriel C. Rodriguez

Imagem: Claude Baillot, MP (1832) – Honoré Daumier

Bernardo da Silva Ferreira (1993 – 2018) foi um insigne conservador britânico brasileiro. Nasceu na cidade de Catolândia, um município modesto de três mil habitantes no interior da Bahia.
Bernardo desde cedo deu sinais de que seria um predestinado: aos três anos usava plastron e cartola; aos cinco, monóculo e pince-nez; aos seis atormentou de tal modo seus pobres pais para que lhe comprassem uma casaca que o infausto casal, mesmo ao preço de se ver nos umbrais da fome, outra alternativa não teve senão ceder. Lá pelos 10 anos, por fim, passou a exigir dos locais que o chamassem de ‘Sir Bernard Smith’.
Como 99% dos brasileiros, ganhou seu primeiro computador na era Lula, e certo dia, navegando pela internet, num artigo da Wikipedia leu a frase “para que o mal triunfe só basta que os homens bons não façam nada”, célebre citação do filosofo britânico Edmund Burke. Ó sumo lume do entendimento transfinito! Hosannah nas alturas! Com efeito, esse divo instante foi um divisor de águas na sua vida: a partir de então, fez tudo o que um lídimo conservador britânico brasileiro leva a cabo em sua vida, vale dizer, passou os anos seguintes lendo verbetes na Wikipedia sobre a revolução industrial, Adam Smith, John Stuart Mill e a Era Vitoriana.
Aos 16 anos, Sir Bernard tinha o incrível emprego de estagiário numa mercearia no subúrbio de Vitória da Conquista, onde impressionava (e irritava) todos os colegas e fregueses com suas frases em inglês, tais como ‘weRR mustá belevá in te futurÊ’ ou ‘absÓlÚtÍ pÓwÉr cÓrrÚpts absÓlÚtelÝ, sempre proferidas na impecável prosódia do pelourinho oxfordiano. Aos 18 anos conheceu o grupo de Facebook “Estudantes Para a Liberdade”, onde finalmente encontrou um Shangri-La de excelência Intelectual. Seu entusiasmo com o grupo era tanto que o administrador de da página, um certo Gabriel Vincent, começou a ficar enciumado. Todavia, como não era de bom tom haver um contencioso explícito entre cavalheiros de tão alta estirpe, os dois julgaram que deveriam entreter apenas uma chivalric rivalry, pois a expressão em inglês era muito elegante.
Na casa dos 22 anos, os pais de Bernardo, pessoas simples, mas de muito bom coração, começaram a se preocupar seriamente com a saúde mental de seu rebento: o rapaz dilapidava seus parcos haveres com tomos no original de seus autores preferidos do conservadorismo britânico, mesmo sendo incapaz de lê-los, já que seus conhecimentos no idioma limitavam-se a umas poucas citações e frases feitas.
O jovem, no entanto, era um purista incorrigível e dizia que a tradução para uma língua tão terceiro-mundista quanto o português maculava a formosa obra do pensamento conservador britânico. Intensificando a simbiose, um belo dia começou a usar cachecóis e pesados sobretudos, mesmo padecendo sob o inclemente sol de sua terra. Como se não bastasse, o envolvimento com os “Estudantes para a Liberdade” paulatinamente o levou ao paroxismo: às vésperas de completar 23 anos, fugiu de casa e colocou um anuncio no jornal, onde manifestava a vontade de ser adotado por uma família britânica.
Finalmente, aos 25 anos, chegou à conclusão que define à perfeição o ‘conservadorismo’ britânico, ao bradar, noite alta, para as melancólicas ruas da cidade que jamais o compreendeu: ‘sou conservador em moral e costumes, mas liberal em economia!’. Desse momento em diante, a coisa realmente enveredou por um caminho sem volta. Candidatou-se a vereador pelo MBL, mas obteve apenas um voto, o dele mesmo. Frustrado com o insucesso eleitoral, assestou suas baterias contra o primitivo e retrógrado povo do interior da Bahia, que não estava preparado para ideias tão sofisticadas (e chiques) quanto as do conservadorismo britânico que ele advogava. Verberou mormente contra o coronel Justiniano Salviano de Albuquerque, principal mandachuva da política local, que não teria aberto os cofres para a campanha de nosso herói.
Enfurecido com a audácia de Bernard, o coronel seguiu o Lord Acton do Recôncavo até um motel que este frequentava com muita assiduidade. Ao arrombarem a porta, Justiniano e seus capangas se surpreenderam, pois encontraram o jovem conservador britânico brasileiro com uma boneca inflável que tinha o rosto de Margaret Thatcher. Passado o pasmo inicial, Fagundes, líder dos jagunços, sacou sua pistola e desferiu um balázio no tórax de Bernardo. O sangue escorreu pela tatuagem de peito inteiro que ele fizera, com a figura de Winston Churchill segurando um charuto, e suas palavras finais, já agonizando, foram ‘nevVÁ surrENdÁ’.
Consta que chegando ao Além ele enfim encontrou os autores e políticos britânicos que tanto venerou em vida. Churchill o chamou de ‘idiota’; Maggie ‘the milk snatcher’ Thatcher grunhiu; Adam Smith e John Stuart Mill gargalharam; e Chesterton escreveu um artigo desancando-o de alto a baixo.
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Aproveito também o ensejo para divulgar o lançamento de meu romance de estreia (também escrito em colaboração c/ Gabriel C. Rodriguez), OS PRIMEIROS ACORDES DA CANÇÃO FATAL, disponível para download na Amazon:

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